Febre 39,4ºC
Puro? O que significa?
As línguas do inferno
São opacas, opacas como as triplas
Línguas de Cérbero, gordo e baço,
Que ofega no portão. Incapaz
De lamber até ficar limpo.
O tendão do agave, o pecado, o pecado.
A palha seca chora.
O cheiro indelével
De uma vela apagada!
Amor, amor, o fumo baixo rola
De mim como os lenços da Isadora, estou aterrorizada
Um lenço vai prender-se e fixar-se na roda.
Essa fumaça amarela e sombria
Cria o seu próprio elemento. Não vai subir,
Mas vai rolar pelo globo
Sufocando os idosos e os humildes,
Os fracos
Um bebé de estufa no seu berço,
A orquídea horripilante
Pendurando o seu jardim suspenso no ar,
Leopardo diabólico!
A radiação tornou-o branco
E matou-o numa hora.
Untando os corpos dos adúlteros
Como cinzas de Hiroxima, corroendo-os.
O pecado. O pecado.
Querido, durante toda a noite
Estive a oscilar, a ligar, a desligar, a ligar.
Os lençóis ficam pesados como o beijo de um libertino.
Três dias. Três noites.
Água com limão, frango
Água, a água dá-me ânsia de vómito.
Sou demasiado pura para ti ou para qualquer um.
O teu corpo
Fere-me como o mundo fere a Deus. Sou uma lanterna -
A minha cabeça uma lua
De papel japonês, a minha pele dourada exausta,
Infinitamente delicada e infinitamente cara.
O meu calor não te assombra? E a minha luz?
Sozinha, sou uma enorme camélia
A brilhar e a ir e vir, flor após flor.
Acho que estou a subir,
Acho que posso ascender
As gotas de metal quente voam, e eu, amor, eu
Sou uma pura virgem
de acetileno
Acompanhada por rosas,
Por beijos, por querubins,
Por seja lá o que essas coisas cor-de-rosa signifiquem.
Nem tu, nem ele
Nem ele, nem ele
(Os meus Eus dissolvendo-se, anáguas de velha prostituta) -
Para o Paraíso.
The Collected Poems | Sylvia Plath
© 1981 The Estate of Sylvia Plath
Editorial material © 1981 Ted Hughes
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa